junho 26, 2006

Depoimento de Fátima Monteiro

Foto: Igreja de São Sebastião, Manaus-AM, anos 60













Até hoje, os loucos de rua que entram na igreja de
São Sebastião não são molestados.


Nota: Fátima Monteiro foi sindicalista nos anos 80 em Manaus. Nos anos 90, atuou no campo dos direitos humanos, junto com o advogado Nestor Nascimento, de saudosa memória. Atualmente vive à beira do rio Uatumã, na comunidade de São José do Uatumã, município de Presidente Figueiredo-AM, onde vivem 150 famílias. Até hoje, por onde passa, não deixa de realizar seu trabalho de organização política do povo do lugar. Fátima é uma dessas mulheres que não perdem jamais a ternura, pero quando hay que undurecer, não queira estar na pele do adversário. Leia o seu depoimento sobre os loucos de rua da nossa infância enviado por e-mail.

Depoimento de Fátima Monteiro

Olá meu amigo,

Que belo reencontro!

Eu acabei de chegar de Presidente Figueiredo, onde gostaria muito de ter uma palestra sua por lá.

Eu moro às margens do Rio Uatumã - Comunidade São José do Uatumã -, que tem cerca de 150 famílias.

Você me fez voltar à minha infância, recordando-me da "Carmem Doida", "Gesebel", dois loucos de rua que me fascinavam! Quando meu tio levava eu e minhas duas irmãs Gracinha e Rose para a missa na Igreja de São Sebastião aos domingos de tarde, a Carmem Doida, que gostava de andar de ônibus (os primeiros de Manaus), com uma saca de estopa nas mãos, quando nos via, virava-se para meu tio Wilson e dizia com todo aquele sorriso grandioso: "Olha, lá vai ele com as suas borboletinhas lindas!..." (tô com vontade de chorar...). Eu e minhas irmãs ficávamos cheias de alegria ao ver e ouvir Carmem DDoida falando. Carmem Doida também andava pela rua com a sua saca de estopa nas mãos. Ela não fazia mal a ninguém, apenas alegrava os transeuntes de Manaus daqueles bons tempos.

O "Gesebel"era um caixeiro-viajante (hoje vendedor ou representante comercial) que trabalhava de segunda a sexta de terno e gravata. Na sexta-feira, após o almoço, o Gesebel rumava para os bares da cidade tomando todas e voltava para casa, na Praça 14, algumas vezes apenas de gravata no pescoço e sunga, cantando pelas ruas da Praça 14: "GESEBEL, GESEBEL, GESEBEL...". À época, eu devia ter 6/7 anos de idade e morava na Jonathas Pedrosa. Ah, como eu gostava de ver e ouvir o Gesebel!

Um beijo da amiga e companheira Fátima Monteiro.

ET.: Meus parabéns pelo filhote.

Manaus, 20 de Junho de 2006. Posted by Picasa

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