março 03, 2007

O fiscal da natureza

Foto: André Coelho, O Globo-RJ












Canal do Cunha e a Casa Flutuante de Luiz Fernando Queiroz

NOTA: A Bacia do Canal do Cunha é uma das principais responsáveis pelo lançamento de grande volume de lixo e esgoto na Baía de Guanabara. Há problemas gravíssimos acumulados ao longo do tempo, como a poluição causada pelo antigo aterro sanitário do Caju, a proximidade de refinarias e a intensa ocupação de suas margens. No Rio de Janeiro, a área está incluída entre as que registram maior número de favelas. Nesse Canal o biscateiro Luiz Fernando Queiroz, 40 anos, usou do material que poluía suas águas para construir sua casa. A Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Estado do Rio, através de seus técnicos, notificou Luiz Fernando para que a casa seja retirada do lugar. Os argumentos de Luiz Fernando apontam as contradições do nosso tempo. No texto do companheiro Edmar Oliveira, do campo da luta antimanicomial, uma outra solução é possível. Em Manaus, nos anos 1990, um cidadão sem teto, construiu um "imóvel", de madeira, de quatro andares, sem pregar um prego, no leito do Igarapé de Manaus. Retirado pelo poder público do local, seu destino é incerto e ignorado. A mídia local jamais conseguiu localizá-lo.

O fiscal da natureza

Edmar Oliveira

Nesta semana Luiz Fernando teve os seus minutos de glória. A mídia invadiu sua casa e mostrou para o Brasil o morador flutuante do Canal do Cunha. Pouca gente sabe o que é o canal do Cunha, mas certamente muitos moradores da cidade do Rio de Janeiro e os visitantes que desembarcam no aeroporto do Galeão já sentiram seu cheiro característico. Trata-se de uma estreita faixa de podridão que separa a comunidade da Maré da Linha Vermelha.

Luiz Fernando juntou milhares de garrafas pet, pedaços de isopor e fez um deck flutuante no canal onde construiu sua casa de dez metros quadrados de alvenaria e materiais de construções demolidas, como janelas e portas, móveis e alguns objetos de decoração. A maioria dos componentes de sua casa foi encontrada dentro e nas margens do próprio canal. E se pode dizer que Luiz transforma o lixo em luxo pelos requintes dos detalhes que adornam sua casa: banheira de hidromassagem (quebrada, mas lá está o símbolo do luxo), grama sintética na varanda, tapete vermelho na entrada e, porque no sonho se tem direito ao exagero, um carro na garagem ao lado da casa. Foi feito um deck auxiliar onde um Opala 1982, com o motor necessitando de retífica, representa o sonho de consumo de quem ascende na escala social. E Luiz sintetiza: "vivemos num sistema capitalista, que dá direito à prosperidade, o que me dá o direito a uma ilha particular". Frase que poderia ter sido um argumento de alguns milionários que ocupam ilhas na baía de Angra dos Reis...

Mas a exposição na mídia tem seus problemas. A Serla, órgão da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, responsável pela preservação das lagoas e da orla marítima, resolveu que a obra prima de Luiz tem que ser removida em sete dias por "invasão com intenção de ocupar águas públicas de domínio estadual", segundo laudo técnico. Luiz Fernando argumenta perplexo: "usei coisas que poluem o canal que a Serla deveria despoluir. E agora a Serla quer me tirar?" Recusa-se a assinar a notificação do fiscal da Serla e quando é acusado de desrespeito novamente brilha no argumento: "só respeito a constituição que me dá direito a moradia".

Toda a linha de raciocínio de Luiz está muito próxima da genialidade ou da loucura, sua irmã siamesa. E, segundo os jornais, o fiscal da Serla concluiu na sua visita: "ele está sem posse das faculdades mentais". Mas não é esta a posse que Luiz está reivindicando. Ele quer manter a posse do sonho, a posse da inventividade e criatividade que, apesar da desesperança, insiste em habitar a alma do nosso povo. A destruição deste sonho pode transformar a genialidade de Luiz em loucura.

Fico aqui me perguntando se Luiz não poderia ser, de certa forma, recrutado pelo órgão público para continuar na sua cruzada de preservação do canal. E fosse reconhecido como ele próprio se nomeia: "sou um fiscal da natureza". Posted by Picasa

2 comentários:

Dene disse...

Gostaria de fazer uma casa flutuante, mas não tenho idéia de como fazer, a arquitetura, quanto de garrafas preciso para flutuar 1m quadrado. Estou muito interessada se vc puder me ajudar, aguardo respostas...

PICICA disse...

Não saberia lhe dar uma indicação precisa. Entretanto, sugiro que você peça ajuda do jornal O Globo, enviando mensagem para a redação. Creio que eles podem lhe ajudar.