junho 22, 2010

Propaganda de cerveja e casca de banana


CervejaBrahmaOficial — 25 de maio de 2010 — Confira o novo comercial da Brahma, uma super produção filmada em Barcelona com os guerreiros Julio Cesar, Luis Fabiano e Daniel Alves. Guerreiro não abandona guerreiro! E aí, nada segura nossos guerreiros rumo ao hexa! Beba com moderação.

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Nota do blog: Leia o artigo em que o estimado Marcos Rolim escorrega numa casca de banana (acontece!), e o de Rafael Gil Medeiros que não deixa a peteca cair.

20 de junho de 2010

N° 16372

ARTIGOS

Guerreiros da cerveja, por Marcos Rolim*

Dunga tem recebido muitas críticas na crônica esportiva. Diante delas, fico sempre com a impressão de que não se trata do técnico, nem das partidas de futebol, mas da ideia que cada um tem sobre o futebol e sobre os modelos – sempre idealizados – do que seja “jogar bem”. Sim, é claro, Dunga poderia ter levado Ganso e Neymar, ao invés de, digamos, Josué e Grafite. Mas, convenhamos, isso não deveria importar muito diante do fato incontestável de que temos um time competitivo com o qual podemos ser campeões. Nem deveria obscurecer os méritos de Dunga na formação de um conceito que se desloca – até aqui vitoriosamente – em campo. Bem, mas esta não é uma crônica sobre futebol. Antes, penso que seja uma crônica sobre o silêncio.

O maior erro de Dunga não foi objeto de atenção dos comentaristas, nem produziu debate na imprensa brasileira. Refiro-me ao fato de o técnico da Seleção estar alugando sua merecida e respeitável imagem de “guerreiro” à venda de uma cerveja. Como se sabe, alguns dos titulares da Seleção Brasileira também foram contratados para este papel de garotos-propaganda de bebida alcoólica. Tivemos, aqui e ali, uma ou outra observação sobre o fato, mas nenhum debate. Tudo se passa como se fosse um episódio “normal”. Será? Penso que não. Ilana Pinsky, em artigo na Folha de S. Paulo, chamou atenção para o fato de que 87% do merchandising e mais de 70% das propagandas da TV aberta de bebidas alcoólicas são veiculadas nos intervalos ou durante os programas esportivos. Só isso já seria preocupante quando se sabe, segundo estudos da Organização Mundial de Saúde, que os custos derivados do consumo de bebidas alcoólicas na América do Sul representam de 8% a 15% do total dos gastos com saúde pública, o que contrasta com o comprometimento médio de 4% dos orçamentos na área no resto do mundo. Bebe-se muito por aqui, então. Muito mais do que seria razoável. Mas quando associamos o consumo de bebidas alcoólicas à prática esportiva – e, especialmente, quando vinculamos simbolicamente nossas maiores conquistas e nossos ídolos no futebol ao hábito de beber – o que fazemos é aumentar o problema.

O consumo de bebidas alcoólicas no Brasil é um hábito firmado no público jovem – entre 18 e 29 anos – e se concentra muito entre os homens (78%). Não por acaso, então, as estratégias de marketing envolvem mensagens apelativas com mulheres (o que permite a associação entre desejo sexual masculino e bebidas) e esportes (destacadamente o futebol). A ironia é que o álcool deprecia as possibilidades de qualquer atleta e tende a transformar os mais ardentes sonhos sexuais masculinos em pesadelos patéticos. Mais do que isso, o consumo de bebidas alcoólicas está correlacionado fortemente à violência, ao sexo desprotegido e aos acidentes de trânsito. Tratamos, então, queiramos ou não, dos estímulos que a propaganda pode oferecer à morte. Mas o que é a morte diante de lucros bilionários e milhões em verbas publicitárias? Um brinde ao silêncio, então.

marcos@rolim.com.br

*Jornalista

Fonte: Zero Hora

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Crítica
Rafael Gil Medeiros - elfonom@yahoo.com

Podemos avançar a partir do artigo...

Legal lembrarmos dos diferentes lobbys em torno das políticas de drogas - sejam lícitas (incluindo fármacos) ou ilícitas. Lobbys para lucrar com a proibição do uso/criminalização de quem usa; lobbys para achar brechas na lei que distingue o que é ou não bebida alcoolica; lobbys para a farmaceuticalização da vida, e por aí vai.

Para além disso, importante lembrarmos das propagandas em si, ou seja: de quais questões pertinentes às nossas lutas importam no exercício do controle social das subjetividades trabalhadas em peças publicitárias. Vale considerar, como "indicador", se estamos fazendo esta crítica enquanto pessoas que usam drogas (e café e cerveja são drogas), ou enquanto seres estóicos cujo corpo é um templo sagrado jamais profanado pelas demoníacas drogas (& moralidades assemelhadas).

Também a questão dos lugares das mulheres-objeto (e dos homens-babacas) nas propagandas, por exemplo. Ou, indo um pouco mais longe, a questão de um certo bairrismo/patriotismo imbecilizante (nem todos bairrismos são imbecis, vide os tropicalistas). Enfim, tudo isso que não é privilégio somente de propagandas de cerveja.

Agora, uma coisa na qual discordo no artigo do Rolim, é quando parece cercar o debate numa certa Saúde higienista, abrindo margens a encararmos como "perigosa" toda e qualquer imagem (publicitária ou não, pois aí já estamos na saúde pública) sobre drogas que associe seus usos num contexto não-problemático. Será que eu bebi demais ontem, ou esses usos não existem? Seria por acaso irreal falar em beber cerveja antes/durante/após praticar esportes, como coisas não resultantes em mortes? Falar num uso não-problemático de bebidas alcoólicas será um perigo, um crime de apologia? Para quem?

Não estou defendendo propagandas, muito menos essas. O que quero dizer é que devemos levar em conta a autonomia das pessoas que usam drogas (incluindo as que tem problemas com drogas), ao pensarmos em prevenção e educação sobre drogas. Digo, uma pessoa pode até não se sentir bem diante da imagem de amig@s bebendo num boteco, mas isso será só mais um elemento para ser trabalhado por ela (e levada em conta nos planos terapêuticos, enfim); porque vamos combinar, não deve se tornar um problema pras pessoas do boteco e/ou desportistas que gostam de tomar um trago.

Por isso, critiquemos sim as propagandas, mas não por vias que passem pela omissão dos usos como práticas culturais, pelo distanciamento da concepção de sujeitos de cuidado, e também pela associação direta entre uso e abuso. Essas vias são as mesmas que nossos inimigos usam pra defender a internação compulsória como política de "acolhimento".

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