dezembro 20, 2010

A crise dos vínculos de confiança (IV)

PICICA: Retomo a série interrompida por ocasião da campanha eleitoral deste ano, que chamou à responsabilidade os blogueiros  unidos contra a imprensa golpista do país.

A crise dos vínculos de confiança (IV)
          
          A partir da obra do psicanalista Joel Birman “Arquivos do mal estar e da resistência”, tendo como objeto as novas modalidades de servidão, hoje trataremos da relação da psicanálise com a modernidade, que inscrita sob o signo da liberdade, inseriu-se num projeto libertário. Freud, seu criador, ao pretender tornar consciente o inconsciente, pôs na pauta a libertação do sujeito do determinismo e do jugo do inconsciente, ampliando, assim, o campo da liberdade.

         Para Birman, porém, o salto mais surpreendente foi o deslocamento do registro estrito da clínica para o da cultura. O discurso psicanalítico promoveria uma crítica contundente, expondo os malefícios da sociedade moderna, a exemplo do campo da sexualidade, com inevitável perda do erotismo do sujeito na modernidade. De fato, o modelo civilizatório baseado no controle das pulsões gerou uma moral sexual com graves manifestações das chamadas “doenças nervosas”.

         Mais tarde Freud radicalizaria suas críticas à modernidade, explicitando as impossibilidades criadas por esta para as subjetividades. Em verdade, segundo Birman, na obra “Mal-estar da civilização” ele forja uma crítica sistemática da modernidade e não da civilização.  Nesse sentido, Freud se contrapôs a dois pensadores: Weber e Heidegger. Para o primeiro os processos de racionalização científica e burocrática do espaço social, correlatos do desencantamento do mundo, caracterizam a modernidade. Já Heidegger, retomando a interpretação de Nietzsche, caracterizava a modernidade pela morte de Deus. 

         Freud, por seu lado, atribuiu ao gozo e ao erotismo humano um papel fundamental, insiste Birman. Barrados pelo projeto da modernidade, eles transformavam radicalmente as individualidades e as comunidades. O empobrecimento simbólico daí resultante e a violência produzida abriram um mal-estar progressivo nas relações sociais. Hoje, as conhecidas modalidades de violência, bem como a potência destruidora da sofisticada tecnologia da guerra, é uma eloqüente revelação do que os sujeitos enfrentam no espaço social.

         Birman resume assim o projeto libertário da psicanálise: ao mesmo tempo um discurso crítico sobre as teorias da degenerescência e da hereditariedade que permeavam a psiquiatria, a medicina social e a medicina legal (fim do século XIX e primeiras décadas do século XX), bem como uma instância crítica do processo de medicalização social que vigorou nas sociedades ocidentais desde o final do século XVIII. Além disso, foi a leitura da psicanálise sobre o erotismo que se chocou com o projeto da eugenia e com as práticas de controle da sexualidade promovidos pela medicalização, como demonstrou Foucault na sua arqueologia da psicanálise.

         Para Joel Birman, o discurso freudiano deixou um legado crucial inesquecível sobre as formas de ser da servidão, seja voluntária ou involuntária. Na sua leitura, é possível apreender as formas de existência da servidão em seu estado nascente. Refere-se aí ao masoquismo

Manaus, Setembro de 2010.
Rogelio Casado, especialista em Saúde Mental

Nota do Blog: Artigo publicado no Caderno Saúde & Bem Estar do jornal Amazonas em Tempo.

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