março 17, 2012

Dupla homenagem ao sábio Aziz Ab'Saber (vídeo + um texto de Pádua Fernandes)



PICICA: "Nestes últimos tempos, Aziz Ab'Saber se dedicava a reunir a obra e a combater o projeto de Código Florestal. A primeira tarefa, ele a terminou nesta semana. / Quanto à segunda, devemos continuá-la por ele e pelas florestas. Ele foi um dos que denunciou o absurdo anticientífico do projeto que faz a alegria da CNA."


Uma homenagem a Aziz Ab'Saber

Morreu hoje, com 87 anos, o grande geógrafo Aziz Ab'Saber. Ele era um daqueles nomes que ultrapassam as fronteiras de sua ciência, tanto pela importância de sua teoria, quanto pela força de seu engajamento. Conheci intelectuais que eram de esquerda para questões da classe média - para outros problemas, mantinham-se firmes em seus preconceitos de classe. Não era, de forma alguma, o caso dele.

Apesar de todo seu prestígio, não se encastelou: mantinha-se acessível aos que o procuravam e era completamente despido de pose. Achava-o admirável nisso também.

Entre suas bandeiras, estava a criação de bibliotecas populares (lembremo-nos de que ele foi um grande educador), a que ele fazia generosas doações. Enquanto existiu a que era a maior ocupação vertical da América Latina, a ocupação Prestes Maia (acabou em 2007, com o governo Kassab), ele foi um dos apoiadores da biblioteca criada pelo catador de papel Severino Manoel de Souza. Ele esteve na ocupações várias vezes e em duas ocasiões proferiu palestra para os moradores. A propósito, vejam o fundamental livro do Fórum Centro Vivo, o Dossiê Violações de Direitos Humanos na Cidade de São Paulo: propostas e reivindicações para políticas públicas, que documentou o higienismo da era Serra/Kassab, que continua e talvez se prolongue além de 2012, o que dependerá dos eleitores da cidade.

Nestes últimos tempos, Aziz Ab'Saber se dedicava a reunir a obra e a combater o projeto de Código Florestal. A primeira tarefa, ele a terminou nesta semana.

Quanto à segunda, devemos continuá-la por ele e pelas florestas. Ele foi um dos que denunciou o absurdo anticientífico do projeto que faz a alegria da CNA. 

Na verdade, ele combateu a proposta desde os seus fundamentos, propugnando que se devia fazer um Código da Biodiversidade, e não um mero Código Florestal. Acessem nesta ligação o texto Do Código Florestal para o Código da Biodiversidade, que ele apresentou na 62ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), uma organização essencial da ciência brasileira (e importante na resistência contra a ditadura militar), de que ele era presidente de honra e conselheiro:

A utopia de um desenvolvimento com o máximo de florestas em pé não pode ser eliminada por princípio em função de mudanças radicais do Código Florestal, sendo necessário pensar no território total de nosso país, sob um ampliado e correto Código de Biodiversidade. Ou seja, um pensamento que envolva as nossas grandes florestas (Amazônia e Matas Tropicais Atlânticas), o domínio das caatingas e agrestes sertanejos, planaltos centrais com cerrados, cerradões e campestres; os planaltos de araucárias sul-brasileiros, as pradarias mistas do Rio Grande do Sul, e os redutos e mini-biomas da costa brasileira e do Pantanal mato-grossense, e faixas de transição e contrato (core-áreas) de todos os domínios morfoclimáticos e fitogeográficos brasileiros.

O próprio modelo, cientificamente, está ultrapassado. Que CNA e Kátia Abreu defendam o atraso, não é de espantar: eles representam a dominação secular do latifúndio no Brasil. E, aos aldorebelianos que acham patriota que o Brasil destrua seus próprios ecossistemas, sugiro que leiam isto:
Será muito triste, cultural e politicamente falando, que pessoas de diversas partes do mundo ao lerem as mudanças absurdas pretendidas para o Código Florestal, venham a dizer que fica comprovado que “o Brasil não tem capacidade para administrar e gerenciar a Amazônia”.

A questão é científica e política. Creio que os obituários repetirão que Aziz Ab'Saber era muito respeitado, mas isso não vale para todos os meios: para a maioria dos políticos profissionais, a palavra dele era igual a zero. Para essa categoria, por sinal, a ciência e a academia não são coisas para se ouvir. Lembro de como ele se referia à ignorância em Geografia de diversos políticos, inclusive de Marina da Silva, que ele achava uma Ministra muito fraca (é verdade, no entanto, que ela é uma sumidade perto da atual versão governamental do ambientalismo).

E por quê? Nesta entrevista que ele concedeu à Fórum, lembramos que aquela categoria prefere a opinião mais cientificamente consolidada das empreiteiras: "Acontece que o governo sempre quer fazer obras gigantescas, faraônicas. Quer transpor as águas do São Francisco, fazer barragens no Madeira, que nem conhece direito, nem sabe a distância, tem pouco conhecimento geográfico."

Fonte: O Palco e o Mundo

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