novembro 17, 2014

"A construção de Tim Maia no cinema", por José Geraldo Couto

PICICA: "Evitando a chatura das cinebiografias, filme de Mauro Lima capta talento transbordante e temperamento explosivo de artista cuja complicada combinação de violência e ternura trazia marca da autodestruição"

A construção de Tim Maia no cinema



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Evitando a chatura das cinebiografias, filme de Mauro Lima capta talento transbordante e temperamento explosivo de artista cuja complicada combinação de violência e ternura trazia marca da autodestruição

Por Jose Geraldo Couto

O cinema brasileiro tem uma dívida insolvível com a música popular. Desde os musicais carnavalescos dos anos 1930 estrelados por Carmen Miranda, a relação entre um e outra tem sido no mais das vezes parasitária, para não dizer vampiresca. A cada “tributo” prestado pelo cinema aos grandes nomes da música, a dívida parece aumentar, em vez de diminuir.

Tudo isso para dizer que Tim Maia, de Mauro Lima, saiu melhor que a encomenda. É um dos poucos casos, a meu ver, em que o cinema conseguiu captar e reverberar a potência da arte de seu personagem.


Não se trata propriamente de uma cinebiografia, mas de uma leitura bastante convincente e envolvente da vida e da obra de Tim Maia. Tudo é uma questão de recorte e perspectiva: abandonar a pretensão enciclopédica ou didática, deixar coisas de fora, optar por uma linha interpretativa, construir, em suma, um personagem. É isso o que faz Mauro Lima, consciente de que uma vida como a de Tim Maia é inabarcável.

Violência e ternura


O artifício usado para construir esse viés é a narração em off por um personagem, o músico Fábio (Cauã Reymond), pseudônimo do paraguaio Juan Senon Rolón, que publicou em 2007 o livro Até parece que foi ontem – Meus 30 anos de amizade e trabalho com Tim Maia, uma das fontes de informação do filme, ao lado do livro de Nelson Motta O som e a fúria de Tim Maia. Ainda que a narrativa não se resuma aos eventos testemunhados por Fábio, o relato deste serve para organizá-la, para conferir-lhe um foco.

O Tim Maia que emerge do filme, em atuações notáveis de Robson Nunes (na juventude) e Babu Santana (na maturidade), é um artista de talento transbordante e temperamento explosivo, um homem cuja complicada combinação de violência e ternura trazia a marca da autodestruição.

O bom é que nada disso é explicitado, e menos ainda “explicado” no filme. Mauro Lima recusa, acertadamente, o psicologismo, o sociologismo e a pedagogia moral. Está tudo na tela – a infância difícil, a discriminação social e racial, o flerte com a delinquência, a formação musical errática, as relações amorosas conturbadas, o mergulho nas drogas pesadas, o ressentimento, a glória, o fracasso, a deterioração física –, mas integrado organicamente numa narrativa cinematográfica eficaz, com ritmo, surpresas e sobretudo humor.

Jovem guarda e bossa nova

A sequência (na verdade, um encadeamento de sequências) em que Tim, de volta dos EUA, tenta falar com seu amigo de adolescência Roberto Carlos, já então um astro pop, é primorosa. Vale por um curso sobre o show business num país social e etnicamente fraturado como o Brasil. Igualmente, a cena em que, levados por Carlos Imperial, os pobretões da Tijuca (Tim, Roberto e seus amigos do conjunto The Sputniks) invadem um bar de Ipanema frequentado pelo pessoal refinado da bossa nova vale por um capítulo da história da música popular brasileira.

O Imperial composto por Luis Lobianco (comediante do “Porta dos Fundos”) é perfeito como cafajeste sedutor. Mesmo o Roberto Carlos de George Sauma, que muitos acusaram de caricato, faz sentido. Afinal, Roberto Carlos é uma espécie de caricatura de si mesmo.

A reconstituição de época, discretamente estilizada, dribla com desenvoltura as pretensões à verossimilhança detalhista que soterram tantas produções brasileiras recentes. Não estamos diante de um retrato naturalista, engomadinho e veraz, dos anos 50 aos 90: estamos diante de um filme de ficção.

Elipses e omissões

Fãs de Tim Maia talvez se ressintam de certas omissões: falta, por exemplo, toda a fase Sullivan-Massadas, Elis Regina não é sequer citada, e um amigo importante como Jorge Ben só é mencionado brevemente num diálogo. Também a turbulenta vida amorosa do cantor é condensada num único relacionamento, com Janaína (Aline Moraes), uma versão bastante modificada da verdadeira mulher de Tim, Geisa. Mas é graças a supressões como essas, e a elipses precisas de tempo, que o filme se mantém por quase duas horas e meia como narrativa vigorosa, divertida e vibrante.
No mais, é “som na caixa”: a música potente de Tim Maia, ocasionalmente na voz dos próprios atores que o encarnam – e que se saem bastante bem do desafio, ainda que sem chegar perto do timbre inconfundível do biografado.

Se há uma frase que sintetiza esse Tim Maia, é uma proferida por uma garota indignada com as grosserias do sujeito: “O cara tem que cantar muito pra poder ser tão folgado”. E não é que cantava mesmo?

The real thing
Em tempo: quem quiser ver o “verdadeiro” Tim Maia em ação, música e pensamento tem como opção este delicioso curta-metragem realizado por Flávio Tambellini em 1987:


Fonte: OUTRAS PALAVRAS

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